Panorama do M&A no setor de construção no Brasil
O setor de construção brasileiro reúne duas frentes com dinâmicas próprias, mas cada vez mais interligadas pelo apetite de investidores: de um lado, a construção civil residencial e comercial; de outro, a infraestrutura pesada, que envolve rodovias, saneamento, energia e logística. Segundo a Pesquisa Fusões e Aquisições da KPMG, o mercado brasileiro de M&A encerrou 2025 com 1.581 transações, praticamente estável em relação às 1.582 operações de 2024, uma resiliência notável em um ambiente de juros elevados, incertezas fiscais e instabilidade geopolítica. Um dos movimentos estruturais mais relevantes apontados pela consultoria foi o avanço dos fundos de private equity e venture capital, que ampliaram sua participação de 43% para 50% do total de operações do ano, reforçando o papel do capital privado na consolidação de construtoras e empresas de infraestrutura.
No recorte específico de infraestrutura e governo, no entanto, o ritmo perdeu fôlego: as fusões e aquisições em infraestrutura recuaram 37,8% no primeiro semestre de 2026, somando 23 transações contra 37 no mesmo período de 2025, segundo dados comentados em coluna da jornalista Jenifer Ribeiro na CNN Brasil. A retração concentrou-se principalmente na agenda de concessões rodoviárias, que desacelerou no período, enquanto operações envolvendo a gestão de ativos portuários e aeroportuários ajudaram a sustentar o mercado. Esse movimento de acomodação, porém, ocorre às vésperas de um novo ciclo: o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo federal projeta uma carteira de cerca de 100 projetos de concessões e PPPs para 2026, somando R$ 247 bilhões em investimentos entre rodovias, saneamento, energia e portos — um pipeline que tende a reacender o apetite por fusões e aquisições em infraestrutura nos próximos trimestres.
Concessões, PPPs e consolidação em infraestrutura pesada
O calendário de leilões reforça esse cenário: o Ministério dos Transportes anunciou a programação de 13 concessões rodoviárias para 2026, com expectativa de R$ 148 bilhões em investimentos, enquanto o BNDES estrutura projetos de saneamento em sete estados, com potencial de R$ 83 bilhões. Para construtoras, fundos de infraestrutura e investidores estrangeiros, essa concentração de certames em poucos meses cria uma rara janela de oportunidades, atraindo desde operadores especializados até capital internacional interessado em contratos indexados e receitas previsíveis de longo prazo — exatamente o perfil que costuma impulsionar rodadas de consolidação de construtoras após os leilões, quando os vencedores buscam sócios operacionais, capital ou escala para viabilizar a execução dos contratos.
O setor de saneamento já dá sinais concretos desse movimento. Um exemplo recente foi a venda da participação de 45% da Simpar na Ciclus Amazônia para a Sustentare Saneamento, por R$ 121 milhões, ilustrando como operações de M&A vêm sendo usadas para reorganizar ativos de concessão e concentrar operação em players especializados. Em paralelo, a Deloitte identifica, em sua análise global sobre fusões e aquisições na indústria de construção, uma tendência de maior foco em mercados locais combinada à busca por diversificação, à medida que as empresas do setor lidam com pressão na cadeia de suprimentos e aumento de custos — fatores que também reforçam a lógica de consolidação entre construtoras de infraestrutura pesada no Brasil.
Construção civil residencial e comercial: seletividade e oportunidade
Já no segmento imobiliário, o movimento de M&A foi mais seletivo em 2025: o mercado registrou 33 operações de fusões e aquisições ao longo do ano, segundo levantamento publicado pela Forbes, refletindo a cautela dos investidores diante do custo de financiamento elevado e do aumento nos custos de construção. Para 2026, porém, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) projeta um desempenho mais positivo para o setor, sustentado pela combinação de redução da taxa de juros, orçamento recorde para habitação financiada pelo FGTS e novas contratações do programa Minha Casa, Minha Vida, além dos próprios investimentos em infraestrutura em curso no país. Esse conjunto de fatores tende a recompor o apetite por consolidação também na construção civil residencial e comercial, abrindo espaço para operações estratégicas entre incorporadoras, construtoras e investidores financeiros ao longo do ano.
Entre a retomada dos leilões de infraestrutura e a normalização gradual do crédito imobiliário, o setor de construção brasileiro caminha para um novo ciclo de consolidação. Para construtoras, incorporadoras e investidores, entender o momento certo — e o parceiro certo — para uma operação de M&A no setor de construção pode ser o diferencial entre acompanhar essa transformação ou ficar para trás.